
À primeira vista, uma estufa de ananases pode parecer uma paragem curiosa entre as lagoas, os miradouros e as termas de São Miguel. Depois entramos numa.
Sob os vidros, o ambiente muda. As plantas crescem em filas apertadas, o ar é mais quente e húmido e, dependendo da estufa, encontramos ananases em fases completamente diferentes de desenvolvimento. Alguns ainda mal começaram a formar-se; outros já se parecem com o fruto que reconhecemos das bancas e dos mercados.
O mais surpreendente, porém, é perceber quanto tempo existe por detrás de cada um. Um ananás dos Açores demora cerca de dois anos desde o início do ciclo de produção até estar pronto para ser colhido, recorrendo a técnicas desenvolvidas ao longo de gerações para permitir cultivar em São Miguel um fruto associado a climas muito mais quentes.
Visitar uma das plantações de ananás em São Miguel é, por isso, mais interessante do que simplesmente ver onde cresce um produto típico. É conhecer uma parte da história agrícola da ilha e descobrir como estufas de vidro, matéria orgânica, fumo e muita paciência transformaram o ananás num dos produtos mais reconhecidos dos Açores.
Durante grande parte do século XIX, a laranja teve enorme importância na economia de São Miguel e era exportada em grandes quantidades, nomeadamente para Inglaterra. Quando as doenças que afetaram os laranjais provocaram uma grave crise nesta cultura, tornou-se necessário procurar alternativas agrícolas. O ananás foi uma das que ganharam importância, juntamente com produtos como o chá e o tabaco.
Havia, no entanto, um desafio evidente: São Miguel não tem clima tropical. A solução passou pelo desenvolvimento de um sistema de produção em estufas, criando condições que permitissem cultivar o fruto no clima temperado e húmido da ilha.
Com o tempo, esta deixou de ser apenas uma experiência agrícola. No virar do século XX, o ananás já se tinha tornado um importante produto de exportação de São Miguel. Hoje, o Ananás dos Açores/São Miguel tem Denominação de Origem Protegida e a sua área geográfica de produção está limitada à ilha de São Miguel.
É provavelmente a primeira coisa que surpreende quem visita uma plantação. Em vez dos grandes campos ao ar livre que associamos às regiões tropicais, em São Miguel encontramos estufas tradicionais de madeira e vidro.
O processo começa com as chamadas “camas quentes”, um solo rico em matéria orgânica cuja fermentação ajuda a elevar a temperatura. É aí que as “toca” dão origem aos primeiros brolhos, antes de as plantas passarem por outras fases e serem finalmente transplantadas para as tradicionais estufas de vidro. Os próprios vidros podem ser caiados para controlar a incidência da luz solar sobre as plantas.
Depois há uma técnica que costuma despertar particular curiosidade durante a visita: os “fumos”. Em determinada fase, é queimado material vegetal dentro da estufa. O fumo resultante contém etileno, que induz a floração e ajuda a obter uma produção mais uniforme.
Quando conhecemos todo o processo, os cerca de dois anos necessários para chegar à colheita deixam de parecer apenas uma curiosidade. Percebemos que cada fruto resulta de várias etapas, transplantações e intervenções feitas ao longo de muitos meses.
Uma visita não ocupa necessariamente uma manhã ou uma tarde inteira. É precisamente por isso que as plantações encaixam tão facilmente num dia em Ponta Delgada e arredores.
O mais interessante é percorrer estufas em diferentes fases de produção. Dessa forma, aquilo que poderia parecer apenas uma sucessão de plantas começa a fazer sentido: conseguimos observar diferentes momentos do ciclo e perceber melhor porque o processo é tão demorado.
Também não esperes necessariamente encontrar centenas de frutos maduros prontos a colher. Uma plantação em funcionamento tem plantas em diferentes fases, e parte da experiência está precisamente em perceber essa progressão.
Em alguns espaços, a visita termina com a possibilidade de provar o fruto ou produtos feitos a partir dele. É um bom momento para reparar numa diferença que muitas pessoas só percebem depois de provar o ananás produzido na ilha: o equilíbrio entre doçura e acidez e o aroma intenso fazem parte das características reconhecidas do Ananás dos Açores/São Miguel DOP.
A zona da Fajã de Baixo, muito perto de Ponta Delgada, continua particularmente associada a esta cultura. Existem diferentes produtores e espaços visitáveis, por isso não é necessário fazer uma grande deslocação para incluir uma plantação no roteiro.
A Plantação de Ananases Augusto Arruda, na Fajã de Baixo, é uma das mais conhecidas. A propriedade esteve anteriormente ligada à produção de laranja e foi transformada por Augusto Arruda, no início do século XX, numa importante plantação de ananás. Está aberta ao turismo desde 1919 e continua na família.
Durante a visita é possível acompanhar diferentes fases da cultura nas estufas e perceber melhor as técnicas utilizadas na produção. A entrada é atualmente gratuita e o espaço está aberto todos os dias, embora os horários variem ao longo do ano.
Também perto do centro de Ponta Delgada, a Plantação de Ananás dos Açores permite percorrer autonomamente estufas em diferentes fases de produção. O circuito utiliza placas informativas e QR codes para explicar o processo e a visita às estufas é atualmente gratuita.
Existem ainda outras plantações visitáveis na Fajã de Baixo e arredores, incluindo as Estufas de Ananases Santo António, onde são apresentadas diferentes fases de crescimento e existe também possibilidade de degustação.
Mais do que tentar visitar várias no mesmo dia, faz sentido escolher uma e dedicar algum tempo a perceber o processo. Depois de vermos uma estufa em cada fase e compreendermos o trabalho envolvido, repetir sucessivamente a experiência acrescenta menos do que continuar a explorar esta zona da ilha.
Sim, sobretudo se gostas de perceber aquilo que existe por detrás dos produtos locais. Não é uma experiência comparável a chegar a uma grande lagoa ou a um miradouro — e não precisa de ser.
A escala é outra. Entramos nas estufas, observamos as plantas de perto e descobrimos um método agrícola desenvolvido para adaptar uma cultura tropical às condições de São Miguel.
É também uma visita fácil de integrar num roteiro, particularmente se estiveres em Ponta Delgada. Em vez de ocupar grande parte do dia, pode funcionar como uma paragem entre outros lugares e acrescentar uma dimensão diferente à viagem: durante algum tempo, São Miguel deixa de ser apenas vulcões, lagoas e oceano e passa a ser também uma ilha moldada pelas culturas que aqui foram sendo experimentadas, adaptadas e aperfeiçoadas.
Se visitares também as plantações de chá dos Açores, vais encontrar uma ligação interessante entre duas culturas que hoje associamos imediatamente a São Miguel.
Ambas ganharam importância num período em que a ilha procurava alternativas agrícolas à laranja, mas seguiram caminhos muito diferentes. O chá encontrou no clima húmido e temperado de São Miguel condições favoráveis para crescer ao ar livre. O ananás seguiu outro caminho: a sua produção na ilha desenvolveu-se em estufas, através de técnicas específicas que permitiram adaptar esta cultura tropical às condições açorianas.
Conhecer as duas ajuda a perceber algo maior do que a história de dois produtos. Mostra como a agricultura de São Miguel se foi adaptando às características da ilha e como algumas dessas soluções continuam visíveis na paisagem atual.
Como várias das plantações visitáveis ficam na Fajã de Baixo e nos arredores de Ponta Delgada, esta é uma das experiências mais fáceis de combinar com um dia dedicado à cidade.
Podes visitar uma plantação de manhã antes de seguir para outra zona da ilha, ou deixá-la para uma parte do dia em que o tempo esteja menos convidativo para miradouros e lagoas. As estufas tornam a experiência menos dependente do céu aberto — uma vantagem nada irrelevante numa ilha onde as condições meteorológicas podem mudar depressa.
Ter carro dá-te ainda mais liberdade para fazer essa combinação sem transformar a visita numa deslocação específica. Com a Amazing Island, podes passar pelas plantações quando fizer sentido no percurso e continuar depois para a costa, para Ponta Delgada ou para outra zona de São Miguel.
O ciclo de produção dura cerca de dois anos. Ao longo desse período, passa por diferentes fases e são utilizadas técnicas tradicionais próprias deste método de cultivo.
Depende da plantação, mas alguns dos espaços mais conhecidos têm atualmente entrada gratuita, incluindo Augusto Arruda e a Plantação de Ananás dos Açores. As condições podem mudar, por isso vale a pena confirmar antes da visita.
As condições de visita dependem de cada produtor. Nos espaços que disponibilizam visitas autónomas não é normalmente indicada a necessidade de reserva individual, mas grupos ou visitas específicas devem confirmar diretamente com a plantação.
Não existe uma única escolha certa. Augusto Arruda é uma das plantações históricas mais conhecidas e permite conhecer diferentes fases da cultura; existem também outros produtores visitáveis na Fajã de Baixo e arredores. Para uma primeira experiência, mais importante do que visitar várias é escolher uma onde possas observar diferentes fases do processo.
Em algumas plantações existem lojas, quiosques ou degustações onde é possível provar o fruto e produtos derivados. A oferta varia entre espaços e ao longo do ano.
Talvez seja esse o detalhe que mais fica depois de visitar uma plantação em São Miguel. Entramos porque queremos ver onde cresce o ananás e saímos a pensar no tempo necessário para produzir um único fruto.
Durante cerca de dois anos, aquele ananás passou por um ciclo de diferentes etapas e transplantações, num ambiente criado especificamente para esta cultura e através de técnicas aperfeiçoadas ao longo de gerações. Aquilo que encontramos depois num mercado, num restaurante ou numa sobremesa deixa de ser apenas mais um produto regional.
E, quando finalmente provamos um ananás de São Miguel, já conhecemos um pouco da história que existe antes da primeira fatia.